O vento empurra a montanha



O vento empurra a montanha. A montanha empurra o vento. O pontinho espremido, entre a tormenta e a parede somos nós; eu e Camila, minha esposa, rainha e parceira em todas as escolhas.

 

Estamos abandonando nossa melhor tentativa de escalar o Bigwall Fitz Roy. “Perto do cume há varias razões para descer e só uma para subir.” Aquele dia não a encontrávamos e ainda não visitamos o seu cume.

Todavia este ano nos sentimos Muy Bien-venidos a la Patagônia. Nesta incrível temporada com a dose certa de fanatismo e de desapego fizemos os cumes  da Agulha de la‘S, Agulha Poincenot e da Agulha Mermoz!

A fé move montanhas e uma fé inabalável move as escaladas neste lado do planeta. As maiores torres rochosas que eu já vi, são de um granito branco, oras dourado como ouro. E ascendem em direção aos céus nos oferecendo um caminho de alta aderência para elevação. Fendas, por quilômetros verticais, são nossos elevadores para o meio das estrelas! Todo mundo sabe disso!

Só que hoje não! O famigerado vento do fim do mundo, logo depois de fazer a curva vem com força total nos arrancar do Neveiro da Aranha. Debatemos pendurados na P6 sobre nossas chances de cume com este vento. Ao meio-dia as nuvens nos envelopam e a ventania tão forte, nos obriga a manter a cabeça baixa e o rabo entre as pernas. As prioridades mudaram e buscamos abrigo nos rapéis da face leste, retrocedendo em minutos as fissuras que escalamos desde a noite anterior.

Escolhemos a face leste porque queríamos aproveitar o puro granito ao sol da manhã. Mas nesta manhã o Sol não apareceu e o puro granito ainda tinha suas fendas entupidas de gelo. Até a P5 eu tinha trocado as sapatilhas pelas botas com crampons 3 vezes. A partir dali o diedro fendado da variante argentina exige definitivamente sapatilhas. Mas sempre com uma piqueta! No início o diedro é super vertical e a fenda tem o tamanho exato para o entalamento de mãos. Aos poucos a fenda abre, exigindo entalar as duas mãos juntas, mas com o tamanho ideal para o meu pé entalar firmemente. Esta técnica funcionou bem até eu chegar a um ponto onde o gelo tapava a fenda. Ali eu precisava liberar uma das mãos, pegar a piqueta na cadeirinha e limpar o freezer. De preferência em pequenos pedaços para que eu pudesse assimilar o impacto dos blocos de gelo que eu mesmo derrubava em cima da minha cabeça, ombros e pernas. Igualzinho a imagem da escalada que planejamos no dia anterior. #sqn...

No dia anterior nos permitimos um bivaque de luxo na Brecha dos Italianos, o colo sul entre o Fitz e a Poincenot. Ali nos estendemos ao sol de uma tarde sem vento algum! Comemos, bebemos e dormimos por 8 horas. Vindos das escaladas em rocha de Goiás, não achamos fácil chegar ali. Antes de conhecer a Patagônia a expedição mais alpina que fizemos foi uma visita a fazenda “Alpes Goianos”. Foram 1500m de desnível desde o vale de Chaltén até o Passo Superior, 3 horas cruzando o glaciar e mais 300m de desnível por neve, gelo e misto de até 75° que nos trouxeram até este merecido descanso.

Desde o nosso bivaque podíamos ver a via que íamos escalar; Franco-Argentina 650m 55° 6c (francês). Ajustamos nossos planos para que pudéssemos desfrutar ao máximo daquele headwall. Mas agora, 24 horas depois, a tempestade não nos dava descanso. Daqui a Camila parece uma pipa na ponta de uma linha revolta! O risco de perdermos uma das cordas no cabo-de-guerra com o vento nos faz optar por diversos rapéis curtos na esperança de expor menos cabo às lacas da montanha. Menos corda = mais estações de rapel. Neste ritmo, todo o nosso material de abandono se acabou e passamos a recolher todo trapo de corda, fita e cordelete que outros escaladores foram obrigados a abandonar para reorganizarmos nossas estações de rapel. Mosquetões, nuts e pitons também fizeram parte desta coleção.

A cada rapel o vento só aumentou e, conhecendo o suficiente da Patagônia nunca duvidamos de que ainda pode piorar! A Silla é uma cornija de gelo azul no formato de uma onda que liga a Brecha com o Headwall do Fitz Roy. Escalamos tranquilamente “surfando” naquela crista. Agora o vento entubava por ali e movia uma rampa de decolagem para foguetes estratosféricos! Rapelando ali, o funil levantava 50 metros de corda como a ponta de um rabo-de-cavalo na garupa de uma moto!

Alcançamos nosso bivaque, nossa lição e mais inspiração: encontramos com um trio de americanos, todos com mais de 50 anos, montando o seu bivaque para aguentar aquela tempestade. Estavam motivados para o pega da vida pela famosa rota Californiana. Nos contaram que estiveram escalando aqui em 1992 junto com o Bito e o Portela e que lá em baixo, na vila, tudo havia mudado, mas que nas montanhas, tudo continuava igual e que um deles foi até capaz de usar o mesmo travesseiro de pedra de 23 anos atrás para abraçar o Fitz e não decolar nas rajadas de vento.

 

Alpinismo para alguns é um esporte, um hobby, uma arte, uma profissão. Para nós, eu e minha parceira, é um compromisso, um casamento, é fidelidade às nossas próprias escolhas. E aprendemos que só escalamos um montanha quando nos permitimos.

Gui Pahl fev/2016





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